A barbárie mais uma vez

A barbárie mais uma vez

5/6/2007

Mais uma vez o Estado da Bahia é palco de demonstração de violência e de atos arbitrários, perpetrados pela polícia, noticiados e filmados amplamente pelos meios de comunicação e por depoimentos das pessoas atingidas. Desta vez, o triste cenário se abateu sobre uma população humilde e pobre no recôncavo baiano, no município de São Sebastião do Passé, na localidade de Maracangalha, comunidade de gente trabalhadora e pacífica que, segundo depoimentos da população, recolheu notas com o sonho de consumir ítens nunca antes experimentados, fato divulgado em noticiário nacional.

Logo após o acidente, a polícia foi avisada e se dirigiu à área para o recolhimento do dinheiro. Em 17 de março de 2007, os jornais Correio da Bahia e A Tarde, em matérias que podem ser definidas como adequadas e sensíveis, dão conta da existência de procedimentos ilegais praticados pela polícia contra os habitantes do local. O jornal A Tarde, publica na manchete principal “Operações ilegais da polícia em busca de R$ 5,5 milhões”. No Correio da Bahia, em uma das matérias de capa, se lê “Homens armados espalham pânico em Maracangalha”. Os habitantes do local passaram a ser vistos pela polícia como aqueles que estariam ocultando o dinheiro e, diante dessa certeza, alguns indivíduos que se apresentaram como policiais arrombaram casas e espancaram pessoas, exigindo a devolução das cédulas.

O Correio da Bahia relata a situação de medo sofrida por Edílson Santos da Cruz, o Alumínio: “Pegaram minha esposa ontem (anteontem) à noite. Levaram para dar uma volta num carro, falando para entregar onde estava o dinheiro. Não roubamos nada. Só peguei e devolvi”. De acordo com o noticioso, Alumínio não sabia o quanto de dinheiro ele e seu irmão entregaram à “polícia” e este último afirma: “Eu colaborei, entreguei numa boa. Sou um cidadão trabalhador (tira do bolso a carteira de trabalho e mostra), embora esteja desempregado”.

Os meios de comunicação revelam o quadro de perseguição: “Homens armados arrombaram casas, estraçalharam sofás, quebraram móveis e eletrodomésticos, seqüestraram e espancaram, sempre com a mesma pergunta: ‘Cadê o dinheiro?”.

De acordo com o jornal A Tarde, o delegado-chefe, João Laranjeira, afirmou que “as pessoas estão pressionadas a identificar o local em que o dinheiro foi escondido por gente que é ou que diz ser da polícia”.

Vítimas dos desrespeitos se dirigiram à Delegacia de São Sebastião do Passé para comunicar a situação. Uma delas, de 73 anos tem sua fala registrada em A Tarde : “Isso aqui virou um inferno. Já não sabemos quem é polícia e quem é bandido. Todo mundo vem atrás desse maldito dinheiro”.

O quadro de desrespeito é expresso por algumas situações como a de Simone Santos Paixão, funcionária da creche São Jorge, em Maracangalha. Ela se encontrava num ponto de ônibus quando foi abordada por homens que se apresentaram como policiais: “Vasculharam minha bolsa, eu tinha R$ 86,00, sendo que R$ 80,00 da creche e R$ 6 meus. Levaram tudo.” De acordo com Simone: “Eu disse que o dinheiro era da creche. Ele respondeu: não é do avião o quê, sua safada!”.

A Tarde relata a experiência de um menino de 13 anos que foi ao local quando da queda do avião: “Quando o avião caiu espirrou gente de todos os lados. Chegamos, alguém gritou: Tem dinheiro! Aí começou o alvoroço. Não demorou muito e a polícia chegou”. Continuando a descrição desse primeiro momento, o jornal informa: “Chegaram atirando, não mais de 20 minutos depois. A multidão correu. De alguns carros que pararam na rodovia desceram pessoas para pegar dinheiro, antes da área ser isolada. Testemunhas acusam policiais de terem levados vários malotes com dinheiro da aeronave em uma picape Ranger”.

Tal método praticado pela polícia, o que já pode ser considerado uma rotina, principalmente entre as populações carentes de tudo, além de desqualificar o Estado, desrespeita os mais legítimos direitos de um povo, fere a democracia e demonstra abuso de poder, autoritarismo e falta de preparo para lidar com as graves questões sociais.

Faz-se necessária a tomada de medidas sérias e comprometidas com o bem estar da sociedade pelo Governo do Estado da Bahia para impedir que agentes públicos – quer seja soldado, delegado etc. -  no cumprimento do dever, continuem a violar os direitos humanos.

O Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia, ao tomar conhecimento de tais arbitrariedades, visitou as pessoas atingidas, ouviu depoimentos e constatou que ali ocorreram torturas e ameaças. Presenciou uma população amedrontada, tendo que se deslocar de suas residências em busca de um local seguro, prevenindo-se para não sofrer perseguições, violências e maus tratos, que têm se repetido desde a data do acidente aéreo.

Vimos repudiar mais uma violação aos direitos da pessoa humana na expectativa que se apurem os fatos e que os verdadeiros responsáveis sejam punidos e afastados do serviço público. O povo brasileiro não necessita dessa gente. O agente público na atribuição do seu dever deveria ser exemplo para a sociedade. No caso em questão, a população amedrontada pelos atos de violência não sabe distinguir quem é marginal ou policial, isto por si só é doloroso e, para não dizer, vergonhoso.

Nas matérias veiculadas vê-se a situação de pobreza inscrita nas falas (especialmente nas imagens de televisão), nas roupas, nos ambientes domésticos devassados pelos supostos policiais ou nos espaços que contornam os lares: a terra onde estariam enterradas as cédulas. Por fim, a ação violenta contra os corpos ou as ameaças contra os moradores nos fazem refletir caso este acidente tivesse ocorrido em espaços considerados nobres, “dignos de toda a confiança”. Como entraria a polícia na casa de um “nobre cidadão” para anunciar-lhe que deve rasgar o sofá para saber se há dinheiro no seu interior? Como seria conduzida a investigação se o local de ocorrência fosse o Leblon, no Rio de Janeiro, os Jardins, em São Paulo ou o Itaigara, em Salvador? Como seria construída a estratégia de persuasão, visando a devolução? Quem seriam as autoridades para mediar as partes envolvidas? E o crime, haveria crime?

Numa democracia, o estado de direito não deve permitir tais violações e abusos, mesmo porque, aquela população carente atingida violentamente deve procurar os seus direitos. O GTNM-Ba se compromete em acompanhar as vítimas para o que for necessário e exigir cumprimento de responsabilidades.

Salvador, 20 de março de 2007