A manipulação da moral

A manipulação da moral

Entrevista com Renato Janine Ribeiro

27/7/2005

Por: Glauco Faria

O brasileiro dá muita atenção às denúncias de corrupção, mas tem extrema dificuldade para enxergar e avaliar as opções políticas que um governante faz. Essa é a opinião do professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP) Renato Janine Ribeiro, diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Para ele, a opinião pública ainda não amadureceu o suficiente para perceber que as questões morais podem ser manipuladas pela mídia e pela oposição, tornando-se parâmetro principal para se julgar um governo. “Isso cria um sistema, uma conturbação, uma indignação que é muito grande e que não corresponde necessariamente à verdade das coisas”, acredita.

Na entrevista a seguir, Janine fala a respeito da instabilidade política nos países da América Latina, do atual cenário brasileiro e destaca a importância de se buscar o diálogo com o Poder Público por outras vias que não os partidos políticos. “Não estou convencido de que a gente deva continuar pensando a política a partir dos partidos. Acho que eles continuam sendo importantes, mas há outras formas de agir social e politicamente”.

Fórum – Essa situação de instabilidade do quadro político brasileiro, se considerarmos os últimos anos, não é exclusividade nossa. Há uma crise muito mais séria na Bolívia, houve tentativa de golpe na Venezuela, tivemos, na Argentina, três presidentes se sucedendo em um período muito curto. Há algo de comum entre esses incidentes?

Renato Janine Ribeiro – Existe sim. Estamos pagando o fato de que as ditaduras caíram na América Latina basicamente no momento em que as vacas se tornaram magras. Enquanto havia bastante dinheiro, os regimes ditatoriais se apropriaram dos recursos, canalizando-os pros setores historicamente privilegiados. O dinheiro começou a faltar em decorrência da crise do petróleo em 73. Sintetizando os anos que seguiram, os regimes ditatoriais foram cedendo lugar a regimes civis que tinham entre suas “qualidades” a de socializar os prejuízos. É a velha coisa de que falava Celso Furtado: no Brasil se privatizam os lucros e socializam os prejuízos.
Então os regimes civis na América do Sul herdaram um legado pesadíssimo em dívida social, em dívida de dinheiro mesmo, e não tiveram condições de saldar essa dívida, que é muito vultosa. Por conta disso, a partir de determinado momento da década de 90, ocorre uma série de crises de governos eleitos pelo povo, mas que são derrubados. No caso do Brasil, isso ocorreu pelo processo legal, mas em outros casos foram formas extra-legais, como a queda de De La Rúa na Argentina, de Fujimori no Peru, as duas quedas na Bolívia. Nesse ponto de vista, o plebiscito que manteve o Chávez no poder, embora eu não aprecie as políticas dele, foi um dado muito positivo, a única dessas crises de legitimidade que foi resolvida pelo povo em votação e não pela mídia ou pelas manifestações que, por legítimas que sejam, não se sabe se representam a maioria ou não. Acho que o ponto terrível nisso, seja em governos neoliberais como o de Fujimori (Peru) ou o do presidente Goni (Bolívia), seja o de De La Rúa, que estava mais a esquerda do que isso, é que todos eles não tiveram condições de quitar o débito social e isso deixa uma marca terrível. Ou você agrada os mercados, e aí aumenta o fosso social, ou tenta medidas de satisfação social, mas com isso afugenta o mercado e sua economia decai. É uma situação muito difícil.

E tem como resolver essa dicotomia? Existe um meio termo?
Em todos esses casos – e é triste dizer isso – a crise é estrutural e não conjuntural e depende relativamente pouco dos atores. Os agentes políticos podem fazer várias coisas sim, não é o caso de desanimar por completo, mas não dá também pra gente acreditar simplesmente na aparência, que é o que faz Condolleza Rice quando discute se o governo age democraticamente ou não. Isso daí é aparência.
Quanto ao caso brasileiro, é obvio que esses casos de corrupção que estão sendo denunciados, essas acusações, devem ser apurados com todo o rigor e quem quer que esteja envolvido deve ser punido, isso não há sombra de dúvida. Mas acho que o Brasil, infelizmente, fez um balanço insuficiente da destituição de Collor. Foi muito positivo tirá-lo do poder, pois Collor infringiu a lei e foi possível fazer isso rigorosamente dentro das instituições. Isso é muito bom, levou a uma série de movimentos em favor da ética na política, que foram positivos, mas teria sido preciso fazer o balanço disso e olhar com certo ceticismo também. Primeiro, Collor não caiu, a rigor, porque ele construiu a casa da Dinda. Caiu porque a política econômica dele fracassou e também por ser um outsider no sistema político. Quando entrou um insider, como Fernando Henrique, muito bem apoiado pelos agentes políticos tradicionais, e fez uma política como a de Collor, nenhuma das denúncias colou, não foram apuradas. Denúncias piores e com mais provas do que as que estão sendo feitas contra o governo Lula. A Folha tinha provas da compra de votos no caso da reeleição e isso não gerou CPI. Hoje, nós temos dizeres, rumores, no caso do mensalão e isso está a um passo de gerar uma CPI. São dois pesos e duas medidas.

Do ponto de vista da opinião pública, não houve o amadurecimento de perceber que as questões morais podem ser manipuladas e isso cria um sistema, uma conturbação, uma indignação que é muito grande e que não corresponde necessariamente à verdade das coisas. Há um certo mantra quando um governo não faz o que deveria fazer, que seria, em suma, quitar a dívida social e o comentário geral da população, seja o governo federal, estadual, municipal é: existe corrupção. O comentário não é “estamos pagando uma fortuna em juros”, que talvez seja o maior dispêndio do país. Ou se responsabiliza o gasto com funcionário público ou se responsabiliza a suposta corrupção. A explicação para todos os casos, para todo o déficit social no Brasil, se volta para a corrupção, fator absolutamente insuficiente para dar conta disso. Outras questões, como a inserção subalterna do país na economia mundial, são deixadas de lado. Com isso, passamos a ver uma discussão que se move no plano das aparências, mas que não afeta o cerne das questões.

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