Atire oito vezes, depois pergunte

Atire oito vezes, depois pergunte

27/7/2005

Talvez Jean Charles de Menezes, o mineiro de Gonzaga em cujo crânio os policiais ingleses cravaram sete balas, fosse um terrorista. Como saber, na semi-penumbra de um túnel do metrô de Londres? Jean não era tão branco. Jean não vestia paletó e gravata, ao contrário dos brancos e não-brancos que movimentam fortunas, lavam dinheiro e quebram países na London Stock Exchange – a mais antiga e mais tradicional bolsa de valores do mundo. A polícia o seguiu por vários quarteirões, mas não lhe ofereceu o direito humano que os meganhas brasileiros reconhecem à maior parte de suas vítimas: ser encostado a uma parede e revistado, mãos na nuca e coxas afastadas, ao invés de sentir o cano gelado do revólver na cabeça e ouvir o som do primeiro projétil estraçalhando os ossos.

O Estado de S.Paulo desferiu, em 26 de julho, oito balaços contra a Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais, a Abong. “ONGs na lista de Valério: pagamentos chegam as R$ 500 mil”, disparou a manchete. Todos os não-brancos sem gravata são suspeitos. Todos os que firmam contratos de publicidade com o Estado e suas empresas também – exceto se membros das oito famílias que controlam a mídia no Brasil.

Em nota divulgada hoje, a Abong relacionou, até a penúltima casa decimal, o volume de recursos que recebeu da União, Estados e Municípios, em contrapartida à divulgação que lhes deu, e a suas empresas, no Fórum Social Mundial (FSM). A Abong é a responsável jurídica pelo evento. Como se sabe, boa parte da verba de publicidade do governo foi distribuída por meio das empresas abertas por Marcos Valério. Em teoria, a Abong poderia ter se envolvido nos esquemas de desvio de recursos públicos que originaram o “mensalão”. Em tese, Jean Charles de Menezes poderia ser um terrorista.

E se a Abong estiver viva?

A Abong tem sede – à qual O Estado de S.Paulo (ao contrário de outros jornais) não se dirigiu, antes de incluir a entidade na “lista de Valério”. Os dirigentes da Abong usam telefone e atendem à imprensa com cordialidade. Os editores de O Estado de S.Paulo (ao contrário dos de outros jornais) sequer procuraram ouvir estes homens e mulheres, antes de disparar os oito tiros.

Como reparar o dano? A ideologia prega peças. Há uma segunda manchete, em O Estado de S.Paulo de 26 de julho. “Ingleses falam em indenizar família do morto”. É como se o mundo pudesse, de fato, ser reduzido à condição de mercadoria. Quantas libras esterlinas pagarão cada sorriso de Jean Charles – “o morto”? Quantos míseros reais apagarão a memória de seus pais, perdidos na solidão de Gonzaga? Quantas folhas de papel verde por cada petardo nos miolos?

Mas… e se a Abong estiver viva? E se o Brasil pedir – além de punição aos que se venderam por 30 mil dinheiros e aos que os compraram – explicações sobre a finalidade do numerário? Que leis o “mensalão” ajudou a aprovar? Que direitos subtraiu-se da sociedade brasileira? Que tal submeter cada uma destas votações a um referendo popular?

Que jornais e empresas de TV a publicidade oficial salvou? Em quanto estava orçado o “mensalão” de cada uma das oito famílias?

Tomara que a Abong sobreviva aos oito tiros. Quem sabe a sociedade brasileira mereça não uma esmola, mas o outro Brasil que é necessário.

(Leia, a seguir, a nota divulgada pela Associação Brasileira das Organizações não-Governamentais na tarde de 26 de julho)

A Associação Brasileira de ONGs –Abong – vem prestar os seguintes esclarecimentos à sociedade brasileira face às matérias publicadas hoje, 26 de julho de 2005, especialmente pelo jornal O Estado de São Paulo, relativas a repasse de recursos pelo governo federal para esta entidade, por meio da agência de publicidade SMP&B sob investigação na CPI dos Correios:

Como é de conhecimento público, e tem sido objeto de transparentes prestações de contas, a ABONG foi responsável pela organização e gestão financeira do Fórum Social Mundial (FSM) desde 2001. Para a montagem do V FSM, realizado em Porto Alegre no início deste ano, a ABONG contou com o apoio financeiro da Cooperação Internacional e com recursos públicos nacionais oriundos do governo federal, diretamente ou através do apoio de empresas estatais, do governo do estado do Rio Grande do Sul, e da Prefeitura de Porto Alegre.

Os recursos recebidos do governo federal, através da ABONG, para o V FSM foram cerca de R$ 5.063.000,00 (cinco milhões e sessenta e três mil reais), na maior parte oriundos de convênio com o Ministério do Turismo, além de patrocínios do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT).

A Prefeitura de Porto Alegre apoiou a realização do Fórum Social Mundial 2005 com R$ 1.799.780,00 (um milhão setecentos e noventa e nove mil setecentos e oitenta reais) e o governo do estado com R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais), além da prestação direta de serviços como a impressão do programa do FSM.

O depósito de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), parte da quantia mencionada pelo O Estado de São Paulo, que foi feito na conta da ABONG (e não na conta do seu diretor, ao contrário do que insinuou o referido jornal), refere-se ao apoio ao V Fórum Social Mundial, prestado pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos por meio da Abong. O pagamento foi realizado, em nome da Empresa de Correios e Telégrafos, pela agência SMP&B.

A outra parte mencionada pelo referido jornal, refere-se ao apoio da ECT para a montagem do “Memorial de Porto Alegre” no Espaço Brasil no IV Fórum Social Mundial de Mumbai, em 2004, na Índia, no montante de R$ 100.000,00 (cem mil reais).

A Abong não tem nenhuma responsabilidade no tocante à relação existente entre a ECT e a referida agência de publicidade e, assim como toda a sociedade brasileira, não tinha então nenhum motivo para não acreditar na idoneidade dos procedimentos da empresa pública ECT, a única com a qual nos relacionamos.
A ABONG prestou à sociedade civil brasileira e mundial o relevante serviço de organizar o Fórum Social Mundial e, para viabilizá-lo, dialogou com as autoridades brasileiras nas três esferas: federal, estadual, e municipal, tendo sempre como patamar ético o reconhecimento do interesse público na realização do Fórum. O apoio do governo federal ao Fórum Social Mundial foi determinado pelo Senhor Presidente da República e foi viabilizado através de interlocução da ABONG com a Secretaria Geral da Presidência da República, sem qualquer tipo de intermediação. Como organização e como cidadãos e cidadãs queremos crer que não andamos em más companhias.

Todos os recursos destinados à realização do FSM foram rigorosamente destinados às finalidades previstas nos convênios e contratos e devidamente auditados. Estamos, portanto, perplexos com o nosso envolvimento com os fatos que são objetos da CPI, já que só nos relacionamos com órgãos públicos em bases éticas e transparentes.

A ABONG participa ativamente de todas as manifestações das organizações e movimentos da sociedade civil brasileira que vêm exigindo a completa apuração das denúncias de corrupção que atingem as nossas instituições políticas, com a rigorosa punição de todos aqueles cujas responsabilidades forem devidamente comprovadas.

Jorge Eduardo S. Durão

Diretor geral da ABONG

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